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domingo, 29 de marzo de 2026

Paulo Leminski: cinco poemas


 

Aviso a los náufragos

 

    Esta página, por ejemplo,

no nació para ser leída.

    Nació para ser pálida,

mero plagio de la Ilíada,

    alguna cosa que calla,

hoja que vuelve al gajo,

    mucho después de caída.

 

    Nació para ser playa,

quién sabe Andrómeda, Antártida

    Himalaya, sílaba sentida,

nació para ser última

    la que no nació todavía.

 

    Palabras traídas de lejos

por las aguas del Nilo,

    un día, esta página, papiro,

habrá de ser traducida,

    al símbolo, al sánscrito,

a todos los dialectos de la India,

   habrá de decir buenos días

a lo que se dice solo al oído,

   habrá de ser la aguda piedra

donde alguien dejó caer el vidrio.

   ¿No es así como es la vida?

  

Aviso aos náufragos

 

    Esta página, por exemplo,

não nasceu para ser lida.

    Nasceu para ser pálida,

um mero plágio da Ilíada,

    alguma coisa que cala,

folha que volta pro galho,

    muito depois de caída.

 

    Nasceu para ser praia,

quem sabe Andrômeda, Antártida

  Himalaia, sílaba sentida,

nasceu para ser última

    a que não nasceu ainda.

 

    Palavras trazidas de longe

pelas águas do Nilo,

    um dia, esta pagina, papiro,

vai ter que ser traduzida,

    para o símbolo, para o sânscrito,

para todos os dialetos da Índia,

    vai ter que dizer bom-dia

ao que só se diz ao pé do ouvido,

    vai ter que ser a brusca pedra

onde alguém deixou cair o vidro.

    Não é assim que é a vida?

 

Adminimisterio

 

  Cuando el misterio llegue,

me encontrará durmiendo,

  mitad dando al sábado,

otra mitad, domingo.

  No haya sonido ni silencio,

cuando el misterio aumente.

  Silencio es cosa sin sentido,

nunca ceso de observar.

  Misterio, algo que pienso,

más tiempo, menos lugar.

  Cuando el misterio vuelva,

mi sueño esté tan suelto,

  ni haya susto en el mundo

que me pueda sustentar.

 

  Media noche, libro abierto.

Mariposas y mosquitos

  se posan en el texto incierto.

¿Sería el blanco de la hoja

  luz que parece objeto?

¿Quién sabe el olor del negro,

  que cae allí como un resto?

¿O será que los insectos

  descubrieron parentesco

con las letras del alfabeto?

 

Adminimistério

 

   Quando o mistério chegar,

já vai me encontrar dormindo,

   metade dando pro sábado,

outra metade, domingo.

   Não haja som nem silêncio,

quando o mistério aumentar.

   Silêncio é coisa sem senso,

não cesso de observar.

   Mistério, algo que, penso,

mais tempo, menos lugar.

   Quando o mistério voltar,

meu sono esteja tão solto,

   nem haja susto no mundo

que possa me sustentar.

 

   Meia-noite, livro aberto.

Mariposas e mosquitos

   pousam no texto incerto.

Seria o branco da folha,

   luz que parece objeto?

Quem sabe o cheiro do preto,

   que cai ali como um resto?

Ou seria que os insetos

   descobriram parentesco

com as letras do alfabeto?

 

Invernáculo

 

     Esta lengua no es mía,

cualquiera se da cuenta.

   Quien cree que mal digo mentiras,

verá que sólo miento verdades.

    Así me hablo, yo, mínima,

quien sabe, yo siento, mal sabe.

    Esta no es mi lengua.

La lengua que yo hablo traba

     una canción lejana,

la voz, más allá, sin palabra.

    El dialecto que se usa,

en el margen izquierdo de la frase,

    esa es el habla que me luxa

yo, medio, yo dentro, yo, casi.

 

Invernáculo

 

   Esta língua não é minha,

qualquer um percebe.

   Quem sabe maldigo mentiras,

vai ver que só minto verdades.

   Assim me falo, eu, mínima,

quem sabe, eu sinto, mal sabe.

   Esta não é minha língua.

A língua que eu falo trava

   uma canção longínqua,

a voz, além, nem palavra.

   O dialeto que se usa

à margem esquerda da frase,

    eis a fala que me lusa,

eu, meio, eu dentro, eu, quase.

 

El viejo león y natalia en coyoacán

 

esta vez no va a haber nieve como en petrogrado aquel día

el cielo va a estar limpio y el sol brillando

tú durmiendo y yo soñando

 

ni casacas ni cosacos como en petrogrado aquel día

solo tú desnuda y yo como nací

yo durmiendo y tú soñando

 

no va a haber más multitudes gritando como en petrogrado

                                                aquel día

silencio nuestros dos murmullos azules

yo y tú durmiendo y soñando

 

nunca más va a haber un día como en petogrado aquel día

nada como un día yéndose tras otro viniendo

tú y yo soñando y durmiendo

 

O velho Leon e Natália em Coyoacán

 

desta vez não vai ter neve como em petrogrado aquele dia

o céu vai estar limpo e o sol brilhando

você dormindo e eu sonhando

 

nem casacos nem cossacos como em petrogrado aquele dia

apenas você nua e eu como nasci

eu dormindo e você sonhando

 

não vai mais ter multidões gritando como em petrogrado

                                             aquele dia

silêncio nós dois murmúrios azuis

eu e você dormindo e sonhando

nunca mais vai ter um dia como em petrogrado aquele dia

nada como um dia indo atrás de outro vindo

você e eu sonhando e dormindo

 

 Lo que pasó, ¿pasó?

 

   Antiguamente, se moría.

1907, digamos, aquello sí

  que era morir.

Moría gente todo el día,

  y moría con mucho placer,

ya que todo el mundo sabía

  que el Juicio, al final, vendría,

y todo el mundo iba a renacer.

  Se moría prácticamente de todo.

De enfermedad, de parto, de tos.

  Y aun se moría de amor,

como si amar fuese mortal.

  Para morir, bastaba un susto,

un paño al viento, un suspiro y ya,

  se iba nuestro difunto allá

a la tierra de los pies juntos.

  Cumpleaños, boda, bautismo,

 Morir era un tipo de fiesta,

  una cosa de la vida,

como ser o no ser convidado.

  Los lamentos eran costumbre,

pero los daños pequeños.

  Descansó. Se fue. Dios lo tenga.

Siempre alguien tenía una frase

  que rebajaba aquello más o menos.

Tenía cosas que mataban, seguro.

  Pepino con leche, un aire clavado,

maldición de vieja o amor mal curado.

  Tenía cosas que tienen que morir,

cosas que tienen que matar.

  La honra, la tierra y la sangre

mandó mucha gente para aquel lugar.

  ¿Qué más podía un viejo hacer,

en los idos de 1916,

  salvo coger neumonía,

dejar todo a los hijos

y volverse fotografía?

Nadie vive para siempre.

  Al final, la vida es un upa.

No da para mucho más.

 ¿Quién lo mandó a no ser devoto

  de San Ignacio de Acapulco,

el Niño Jesús de Praga?

  El diablo anda suelto.

Aquí se hace, aquí se paga.

  Almorzó y se afeitó la barba,

tomó un baño y salió al viento.

  No tiene nada que reclamar.

Y ahora, vamos al testamento.

  Hoy, la muerte es bien difícil.

Tiene recursos, tiene asilos, tiene remedios.

  Ahora, la muerte tiene límites.

Y, en caso de necesidad,

  la ciencia de la eternidad

inventó la criónica.

  Hoy, sí, personal, la vida es crónica.

  

O que passou, passou?

 

   Antigamente, se morria.

1907, digamos, aquilo sim

   é que era morrer.

Morria gente todo dia,

   e morria com muito prazer,

já que todo mundo sabia

   que o Juízo, afinal, viria,

e todo mundo ia renascer.

   Morria-se praticamente de tudo.

De doença, de parto, de tosse.

   E ainda se morria de amor,

como se amar morte fosse.

   Pra morrer, bastava um susto,

um lenço no vento, um suspiro e pronto,

   lá se ia nosso defunto

para a terra dos pés juntos.

   Dia de anos, casamento, batizado,

morrer era um tipo de festa,

   uma das coisas da vida,

como ser ou não ser convidado.

   O escândalo era de praxe.

Mas os danos eram pequenos.

   Descansou. Partiu. Deus o tenha.

Sempre alguém tinha uma frase

   que deixava aquilo mais ou menos.

Tinha coisas que matavam na certa.

   Pepino com leite, vento encanado,

praga de velha e amor mal curado.

   Tinha coisas que tem que morrer,

tinha coisas que tem que matar.

   A honra, a terra e o sangue

mandou muita gente praquele lugar.

   Que mais podia um velho fazer,

nos idos de 1916,

   a não ser pegar pneumonia,

deixar tudo para os filhos

    e virar fotografia?

Ninguém vivia pra sempre.

   Afinal, a vida é um upa.

Não deu pra ir mais além.

   Mas ninguém tem culpa.

Quem mandou não ser devoto

   de Santo Inácio de Acapulco,

Menino Jesus de Praga?

    O diabo anda solto.

Aqui se faz, aqui se paga.

   Almoçou e fez a barba,

tomou banho e foi no vento.

   Não tem o que reclamar.

Agora, vamos ao testamento.

   Hoje, a morte está difícil.

Tem recursos, tem asilos, tem remédios.

   Agora, a morte tem limites.

E, em caso de necessidade,

   a ciência da eternidade

inventou a criônica.

   Hoje, sim, pessoal, a vida é crônica.



 Versiones M. Varón de Mena



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